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Jamais em tempo algum, alguém poderia supor que o grito dos torcedores brasileiros fosse abafado pelo grito nas ruas, alheios à bola que corre nos gramados de um torneio internacional. O brasileiro viveu por séculos alienado, passivo diante da realidade que não só agora, mas que  sempre foi vergonhosa no que se refere aos seus direitos enquanto cidadãos. E a política canalha cada vez mais ciente disso, foi deitando e rolando em cima desses direitos, ignorando a vontade e necessidade dessa nação esmagada na sua dignidade, pisoteada nas suas prioridades  e esquecida nos projetos que mãos e mentes ambiciosas armam para sempre tirar vantagem, visar lucros, privilégios e mordomias, inquestionáveis como direitos de quem assume cargos políticos. Por décadas e décadas a saúde sucumbe, a educação agoniza, o transporte público envergonha, as ruas e estradas nos massacram, os salários mínguam, e o povo sempre recuando diante das barreiras sociais. Para a política brasileira, somente duas camadas interessa: a classe rica que  financia e apóia esperando o retorno e a classe pobre que elege, comprada pelas promessas, pelos projetos sociais que lhes dão cada vez mais estabilidade econômica.  No meio, esquecida e sufocada, a classe média lutando para sobreviver, sempre correndo atrás do prejuízo salarial com dois e até mais empregos para manter o mesmo padrão de vida. Mas há muito que esse padrão foi pro brejo.

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As melhorias para a classe pobre através de um aumento sempre significativo do salário mínimo e incentivos através de projetos sociais aumentou consideravelmente a renda  das famílias mais carentes. Para o trabalhador da classe média, infelizmente nem sempre o ganho salarial acompanha o mesmo índice, principalmente para quem ocupa um cargo público. Hoje,  tornou-se impossível, um professor, por exemplo, poder arcar com uma empregada doméstica para cuidar dos filhos enquanto trabalha fora. No final das contas, é provável que a empregada tenha o salário mais alto que o seu, principalmente se for funcionário público no Estado de Minas Gerais, onde o salário  está congelado pelo atual governador que é totalmente indiferente à valorização de seus servidores. O salário mínimo cresce e o piso salarial do governo federal, a princípio tão miraculoso, de repente se dilui, vira migalhas diante dessa inflação camuflada que só a gente que está do lado de cá sente no bolso.  Há um distanciamento muito grande entre o ganho real nas camadas sociais de nosso país.

Sempre defendi a política social, o resgate dos direitos  da classe pobre do Brasil, que esmolava pelo pão no passado. Hoje ela exige, e quer naturalmente, todo o conforto que os bens de consumo podem oferecer. E enquanto o poder aquisitivo da classe pobre acelera com os incentivos do governo,  a classe média vai perdendo o impulso, vai abrindo mão de muita coisa para sobreviver, enquanto se desdobra para tentar manter o mesmo padrão de vida. De repente, passou a ser  redentora do país, parcela onde todos os gastos devem ser reduzidos, incentivos cortados, benefícios negados, impostos multiplicados,  investimentos restritos, como se merecesse ser castigada pelos privilégios que conquistou na vida através de seus próprios braços e recursos. Metaforicamente, condenada a viver constantemente correndo atrás de prejuízos.

Infelizmente, a classe pobre ainda é maioria, e é nela que nossos políticos miram para garantir seus votos. Esse é o eleitorado fiel, para quem os políticos assistencialistas são deuses. E é por isso que os filhos dessa classe esquecida, os filhos da classe média,  estão gritando nas ruas. Politizados pelas próprias necessidades, pelo sofrimento dos pais sacrificados para lhes dar uma vida digna e revoltados com a impunidade e a corrupção dos nossos representantes no poder, eles resolveram dar um basta e enfrentar de peito aberto essa vergonha nacional.  As redes sociais foram apenas o princípio de um diálogo, que de repente deu voz à multidão que por tanto tempo transitou muda, esquecida do poder de sua própria voz.  Não sei por quanto tempo esse povo vai se fazer ouvir, e se ouvido, será capaz de sensibilizar mudanças. Mas também sei que o Brasil jamais será o mesmo depois desses dias turbulentos. Afinal, nem mesmo os pequenos campeonatos de futebol passaram tão indiferentes nos campos brasileiros. E sendo essa,  uma Copa que antecede o torneio mundial de futebol,   dessa vez não houve a torcida que o mundo esperava. O brasileiro, finalmente descobriu  que antes de ser o país do futebol é o país de seres humanos, que querem muito mais respeito e dignidade do que a euforia de momentos gloriosos de apenas noventa minutos.  Melhor do que sermos  campeões do mundo é sermos campeões nos direitos essenciais à dignidade do ser humano. Portanto, é melhor que muita coisa aconteça antes da Copa de 2014. Se  como dizem, essa agora é apenas um ensaio,  deu para ver a dimensão do espetáculo  que nos espera!

Maria do Rosário Bessas é escritora e presidente da Academia de Letras de Lagoa da Prata (Acadelp)

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