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Seu Mourão disse que certa vez foi a um leilão de gado. Foi mesmo por influência do Padre Tavares de Japaraíba que também queria ir e estava sem condução naqueles dias. O leilão era famoso por toda a redondeza, movimentando o cenário das roças e fazendas, incrementando os negócios, girando riqueza.

O Zé Alonso e a Mansueta também acompanharam seu Mourão, Dona Isabelinha e o Padre.

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A conversa veio solta desde as primeiras horas da manhã, pela madrugada, regada com café e uma cachacinha que o Zé Alonso trouxe de São Paulo, comprada a preço de ouro bruto no armazém geral da rede ferroviária, famoso na capital.

Disse o seu Mourão que nunca tinha visto uma cachaça tão ‘brava’ como aquela. Deu duas bebericadas e ele começou a ver estrelas e gente morta, uma coisa de arrepiar, segundo ele. Não apertava na hora de beber, nem descia ‘rasgando’, como dizia os antigos. Era macia. Porém quando o ‘vapor’ dela subia, quase tirava o chapéu de sobre a cabeça.

Depois de pouco mais de duas horas chegaram ao tal lugar onde ocorreria o leilão. Tudo estava pronto para o início do evento: o gado, cavalos, os tropeiros, auxiliares, comerciantes, leiloeiro e o que o pessoal acha mais interessante mesmo, as moças que ‘cantavam’ os lances, com as suas roupas ‘alegres’, segundo o seu Mourão (entenda-se, provocantes).

Dona Isabelinha respondeu que nunca tinha visto tanta pouca-vergonha em roupa de mulher na vida dela; que elas estavam mostrando as ‘ vergonhas’ pra todo mundo; que até o Padre tinha ‘esticado as sobrancelhas’, fazendo o sinal da cruz, em seguida.

Começou o leilão, os lances foram sendo dados e o gado vendido. Veio o almoço, e o leilão recomeçou, só que de forma beneficente. Toda a renda seria revertida para a construção e reforma do hospital para ‘leprosos’ (hanseníase), em Bambuí, bem como construção de casas e um abrigo.

Quase ao final do leilão, veio o aviso que deixou o seu Mourão apreensivo, diria até atordoado. Disse o leiloeiro que todos os possuidores de gado deviam ter cuidado com a mais nova ameaça da região: “a vaca louca”! Seu Mourão ficou agitado. Quis saber mais sobre a tal vaca.

Perguntou um, perguntou outro, recebeu respostas evasivas, até mesmo uma resposta enfurecida de um rapaz jovem, sem paciência.

De certo que o seu Mourão voltou para casa intrigado com a tal ‘vaca louca’. Calado, pensativo, dessa vez tomou a garrafa das mãos do Zé Alonso e “deu logo no meio dela”, que era para aplacar os pensamentos sobre a tal vaca.

Chegou ao sítio, andou de um lado para outro e retornou para a cidade, a fim de saber mais detalhes sobre a ‘danada da vaca’ que estava tirando o sono de todos os fazendeiros.

Pela noitinha, chegando em sua casa novamente, foi ter com os filhos, noras, filhas e genros na varanda de casa, rindo da sua aventura. O frango caipira por sobre o fogão, arroz branquinho e o feijão pagão não amainou o seu ímpeto em contar a aventura na cidade.

Quando ouviu falar sobre a tal vaca louca, pensou em tirar o dinheiro do banco para comprar a tal vaca, visto o clamor do povo, bem como as conversas no pé do ouvido de todos os presentes no leilão, aquele alvoroço. Pensou consigo que talvez fosse um excelente negócio comprar essa vaca devido a repercussão que tal trouxe.

Foi à cidade buscar saber notícias sobre a tal vaca louca, encontrando pessoas instruídas na cidade que o revelaram que na verdade a tal vaca louca era mesmo uma doença que aplacava o gado, dizimando o rebanho. Riram dele, caçoando, vez que era a primeira vez que alguém queria comprar doença para colocar no gado, ‘pra aumentar’ a qualidade do rebanho, o plantel.

E o seu Mourão mandando os fazendeiros colocarem preço na tal vaca, pensando que era negócio de comprar ou vender. Repetiu na varanda de casa a frase que ele mais detestava, de tanto que ouvira do seu pai quando criança e adolescente: “Gente bobo e estrada ruim não tem acaba”.

Histórias que o povo conta…

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