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Certa vez seu Mourão disse lá que os vizinhos todos se reuniram para que pudessem identificar um ladrão que vinha causando prejuízos aos sitiantes.

Japaraíba tinha lá três ou quatro militares, na época, não mais que isso. Disse o seu Mourão que o pessoal fazia o que podia.

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Nada havia que pudesse deter o tal bandido. Foram dias e mais dias de muita aflição e algum desgosto. Galinhas sumindo, sem cabeça, sem pés. Cabras sumindo. Bezerros arrastados e colocados debaixo de cercas e próximo de árvores. As pessoas foram tomando corpo nas reclamações.

Tentaram armar uma emboscada. Colocaram cachorros bravos nos galinheiros, também nas cocheiras e currais. Colocaram fio de energia ligado no meio da lavoura. Os espantalhos foram mudados. Aqueles que tinham armas em casa se colocaram em vigília, a fim de afugentar o rato.

Seu Mourão disse que foram quase três meses de aflição. Muitas galinhas, cabras, passarinhos, e até mesmo verduras passaram a desaparecer misteriosamente. Isso, em toda a região, em todas as propriedades.

Era época de chuvas. Ao dia, calor muito intenso, sempre com chuvas no fim da tarde, na boca da noite. Com noites escuras, as buscas foram minimizadas. Era difícil, até perigoso.

Seu Mourão, de gênio forte e personalidade firme, apesar da calma e tranquilidade para conversar, desafiou os homens para irem atrás do que causava prejuízo a todos. Obteve medo em resposta. Disse que iria então sozinho mesmo, atrás do ladrão.

Uma noite dessas, seu Mourão disse que iria descobrir a tal lenda, que daria um fim naquilo tudo.

Reuniu os vizinhos e pediu a todos que colocassem as galinhas, os passarinhos, as hortaliças, bezerros, todos na sua propriedade. Que certamente o ladrão viria até ela, visto que nada havia em lugar algum. E então saberia de pronto quem era o tal ‘mão leve’ e o esperaria para terem um diálogo.

Armou-se com uma arma calibre 12. Colocou munição até enchê-la. Ainda, colocou outras munições na algibeira. Montou no cavalo e foi para o alto do morro, no alto da Garça, por trás dos eucaliptos. Com paciência, naquele silêncio, iniciou a espera.

Postou-se lá até que se fizesse madrugada certa. Amarrou o cavalo e desceu a pé, postando-se num valão, de modo que tinha à sua frente, vista do galinheiro, das cabras, da lavoura e dos bezerros.

Postou-se ali a primeira noite e nada. Vaga-lumes, cigarras e alguma distração. Segunda noite, também nada. Acendeu um palheiro, fez lá uma graça com a fumaça. Terceira noite, postou-se novamente no mesmo valão.

O céu estava enegrecido e a lua havia sumido. Escuridão total. Ouviu passos e uma sombra foi se dissipando, saindo dos eucaliptos. O seu Mourão disse que vinha em sua direção. Era certo o tiro fatal. Quando olhou não estava acreditando no que viu. Era enorme.

O tal ladrão na verdade era uma onça parda, com manchas escuras na parte de cima. Soltou o tiro e a onça correu para os lados do eucalipto. Seu Mourão disse que sempre foi muito bom de mira, acertando-a novamente quando esta passava próximo ao lugar onde o cavalo estava amarrado, caindo nas proximidades do mata burro, ao lado da porteira do lugar.

Reuniu dois ou três vizinhos e foram até próximo de onde ela havia caído, observando bem o lugar, visto ser este bicho muito traiçoeiro. Eis que ao postarem-se no alto do barranco próximo à entrada do sítio, viu a poça de sangue. Contudo, nem sinal da onça.

Ao amanhecer o dia, entregou aos demais suas galinhas, passarinhos e bezerros, cabras e demais criações. E até a data de hoje, não mais avistou o tal animal. O ladrão parece que se assustou e sumiu.

Histórias que o povo conta.

 

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