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Nasceu Luis Antonio Sanode e mais um sobrenome que eu esqueci (acontece quando não se anota os dados convenientemente). Pessoa da minha idade, séria mas com riso fácil e um bom humor admirável. Conheci-o numa das viagens para o Rio. Como ele é de Minas, Lambari, trouxe na memória lembranças da sua infância em ambiente bucólico e fazendas onde morou. O pai era retireiro.

A mãe em busca de melhores recursos para os filhos mudou-se para o estado do Rio, vindo a estabelecer-se na cidade de Frade. O pai faleceu. Sua mãe não pôde levá-los para Minas para o sepultamento do pai. Apenas a irmã mais velha acompanhou a mãe até São Lourenço onde o pai foi sepultado.

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Chamou-me a atenção o fato de Sanode ser eletricista. Estava com bolsas com ferramentas e equipamentos. Tudo muito limpo e organizado. Dei-lhe carona para Angra onde iria trabalhar num prédio de apartamentos. Disse ele que ninguém no Rio dá carona a não ser para conhecidos, por causa da violência.

Sua aparência era de mais idade. Estava com cabelos bem grisalhos.

Depois de falar sobre a infância, contou acerca de um sonho que tivera há dias atrás. Disse que estava assentado no sofá de sua casa. A porta da sala dava diretamente na porta da cozinha; ou seja, a porta da sala e da cozinha formavam um corredor imaginário entre a sala, a copa, a cozinha, pequena varanda e a porta que dava para os fundos da casa. Disse que parecia uma passarela: pessoas de várias idades, rostos, nomes, sexos, trejeitos… Várias pessoas… algumas conhecidas, outras não. Algumas vivas, outras pessoas que já morreram fazem anos.

Contudo, uma das pessoas chamou-lhe a atenção. Era uma senhora com seus setenta e cinco anos, saia verde até os joelhos, sandália branca já desgastada pelo tempo, blusa branca com babados, lenço branco na cabeça muito limpo, muito branco. Carregava na mão direita uma sombrinha fechada, colorida, de verde e branco. Na cintura possuía uma faixa verde amarrada com um laço muito bonito às costas. Passou pela porta da sala, olhou para ele, franziu a testa, fez um sinal que “não” e saiu pelo corredor imaginário, dando na porta da cozinha.

Com ar muito sério, disse que há dias atrás foi até um apartamento realizar um conserto na parte elétrica, danificada depois de um ar condicionado mal instalado e que por pouco não colocou fogo em toda a casa. Depois do conserto realizado, foi até o carro e rumou para a sua casa. Pensou muito na senhorinha de verde dizendo “não” a ele.

Passados algumas centenas de metros, observou que havia uma placa dando conta de um desvio para a direita, fora da pista, muito provavelmente dando na pista inferior, para qual deveria rumar logo mais a frente, no trevo principal. Adiantou–se na curva para tornar a virar à esquerda, mas a voz da senhorinha de verde disse não novamente em sua mente, e ele decidiu brecar o veículo, parando em seguida. Fez sinais com as mãos e decidiu retornar para onde viera, mesmo com oposição dos demais veículos, visto andar um trecho em contramão. Foi novamente a frente na estrada anterior e fez a alça da pista, tornando a virar à esquerda e descendo a rodovia sentido sua cidade, a cidade na qual morava.

Qual não foi sua surpresa quando passando em frente ao desvio, viu os carros todos enfileirados, batidos, amassados, depois que uma carreta sem freios veio abalroando e batendo em todos os veículos que estavam parados na esperada de oportunidade para adentrarem a rodovia. Pensou que certamente estaria com o carro danificado e até mesmo sem vida, diante daquele desastre.

Quando chegou em casa, contou à esposa o sonho e o acontecido e ela fez carinho em seus cabelos, dizendo que não era mais para ele jantar naquela hora da noite e ir dormir, por que causa pesadelos.

Contou-me que, pesadelo ou não, sempre agradece a “senhorinha de verde” pelo aviso, o que salvou a ele e ao carro, ajudante do ganha pão na lida diária.

Histórias que o povo conta…

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