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Na Alegoria da Caverna, Platão criou uma metáfora para explicar a ignorância do ser humano, que vive isolado, escondido, absorto no seu mundinho, desconhecendo a realidade do real, acreditando apenas naquilo a que ele teve acesso na sua própria escuridão. Para o filósofo, o homem só teria conhecimento caso se libertasse dessa prisão e tivesse outras experiências. Atualmente, observa-se o comportamento de uma geração que se isola em sua pequena caverna chamada celular. Não há idade para definir quem está sempre conectado, seja nas redes sociais ou seja nos jogos digitais, vivendo uma prática individualista mesmo quando se passa muito tempo online em interação com outras pessoas.  Bom ou ruim, não se pode ter uma resposta categórica para definir esse momento da humanidade. Porém, é uma fase preocupante. E curiosa.

Nas rodas de amigos que nasceram nos anos 1980, as lembranças são as brincadeiras na rua: queimada, pique esconde, roubar bandeira, peladinha, caí no poço. Certamente, muita nostalgia para quem torce o nariz para as tecnologias. Contudo, é estranho pensar também que daqui a alguns anos a molecada recordará que passava horas se divertindo no Candy Crush, criando diversos avatares para se conectar com outros personagens ficcionais ou consumindo uma enxurrada de vídeos por meio do YouTube. Cada um encontra a melhor maneira para ser feliz, mas o excesso de vivências virtuais está perigoso, pois muitas pessoas estão se comportando no cotidiano como se estivessem em um game. Às vezes, ao invés de um sorriso, um por favor, um obrigado, só estão sinalizando emoticons com o corpo, com o teclado. Um monólogo robotizado sem sentimentos.

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Um ato que incomoda é o tal do bloquear. Se uma frase foi mal interpretada no Facebook, bloqueia. Se um vídeo duvidoso foi enviado pelo WhatsApp, bloqueia. Se um elogio se parece com um galanteio, bloqueia. Se uma foto não agrada aos olhos do seguidor no Instagram, bloqueia. Se uma briga acontece entre o casal de namorados, bloqueia-se um dos pombinhos, a família, os amigos e até os conhecidos em comum. Apaga-se uma história em apenas um clique, quando se poderia pedir desculpas ou perdão, um abraço, um colo, a partir de algo que quase não existe na internet que é a tolerância. Pode-se também chamar de respeito, de compreensão, de amor. E esse parece que já se transformou em apenas na soma de elementos gráficos do computador para formar um coração: <3. Só que ali não corre sangue.

De certa forma, nota-se que o homem tem buscado as mesmas motivações ancestrais, mas de uma maneira virtual. A caverna é aconchegante. Lá não há desafios, não há angústia nem contrariedades. Um mundo belo, planejado, calculado pela velocidade dos clipes musicais que atraem bilhões de visualizações. É preciso ser curtido, compartilhado, indicado para mais audiências. A cultura é aquela que se tem acesso pelas pesquisas no Google. As sombras projetadas nas paredes saem da lanterna do celular, um modelo contemporâneo da antiga fogueira. Onde terminará essa caminhada digital? Será no tédio do isolamento? No tédio do próprio casulo? Ou essa preocupação é apenas uma angústia de quem sente saudade do tempo parado, da infância do jogo de amarelinha, da bolinha de gude, da polícia pega ladrão e que ainda não sabe brincar com os consoles da Nintendo?


Juliano Azevedo

Jornalista, Professor Universitário, Escritor.

Blog: www.julianoazevedo.blogspot.com.br

Twitter e Facebook: @julianoazevedo

E-mail: [email protected]

Instagram: @julianoazevedo / @ondeeobanheiro

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