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Rodrigo Tavares Mendonça é psicólogo e especialista em psicoterapia de família e casal pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Contatos: [email protected] e (37) 99924-2528.
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O comediante mexicano Álex Fernández fez sucesso no Facebook ao publicar um vídeo sobre os palpiteiros das Olimpíadas. O esquete, que alcançou mais de 600 mil visualizações, mostra o comediante brincando com a ilusão das pessoas de serem especialistas nos jogos, muitas vezes sem conhecer quase nada do esporte em questão. “Todo mundo adora opinar, e nos tornamos eruditos do esporte”, ironizou em entrevista ao jornal El País. “Quando eu estava vendo a final de saltos sincronizados de 10 metros dava opiniões sobre os respingos e a inclinação do mergulho. Eu me achava um dos juízes, mas estava era dizendo um monte de idiotices.” Ao fim da entrevista, conclui: “Não só sobre esportes. Lembre-se da última reunião familiar à qual compareceu: todo mundo dá opinião sobre qualquer assunto, é uma coisa cultural”.

Realmente, damos opinião sobre tudo, mesmo sem sabermos quase nada sobre o assunto em questão. Em mesa de bar, conversa-se sobre política e todos sabem a causa da crise econômica e a solução para desenvolver o Brasil; conversa-se sobre religião e todos sabem os acertos e erros de cada uma; conversa-se sobre comportamento humano e todos sabem dar conselhos para que as pessoas vivam melhor e resolvam seus problemas; conversa-se sobre qualquer coisa e todos sabem um pouco – ou, não raramente, tudo – sobre qualquer assunto. A era da internet, da democratização do conhecimento e das redes sociais tornou possível a qualquer um ser especialista em tudo. Sobre isso, o filósofo italiano Umberto Eco disse certa vez: “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”.

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De fato, lidamos muito mal com o não saber. Há alguns anos, presenciei um diálogo interessante entre uma crente e um ateu. Indignado com a postura do ateu, a crente disse: “Como você pode dizer que Deus não existe? Por que você acha que está respirando? Quem criou a vida e o universo? Para onde você vai depois de morrer?” A ciência aponta algumas respostas, mas, obviamente, todas incompletas. A religião satisfaz melhor a vontade de saber e, principalmente, a angústia de não saber. Parecia inconcebível para a crente uma pessoa simplesmente lidar com a angústia de não saber, aceitar que não sabe e não buscar desesperadamente respostas. Há coisas que simplesmente não sabemos. Contudo, geralmente não aceitamos não saber, angustiamo-nos por não saber. Então, começamos a confabular.

O campo das interações humanas é fértil para interpretações que visam satisfazer a angústia de não saber. Os psicólogos Paul Watzlawick e Janet Beavin e o psiquiatra Don Jackson, em um belíssimo livro intitulado Pragmática da Comunicação Humana, disseram que as pessoas têm o costume de imputar maldade ou loucura ao outro quando não compreendem o seu comportamento. Constantemente não compreendemos a atitude dos outros e com a mesma frequência dizemos que ele fez isso porque não gosta de nós (maldade) ou não sabe o que está fazendo (loucura). Se seu chefe lhe dá uma ordem que você não compreende ou não concorda você tende a supor que ele fez isso para te prejudicar ou porque é um “doido varrido”. O problema é que essas suposições não passam de interpretações que fazemos sobre o comportamento dos outros e que não raro estão equivocadas.

O que se evidencia em todos os casos é a angústia de não saber. Temos fome de conhecimento e quase morremos de inanição diante da falta de sentido. Se falta sentido em um fato ou comportamento nós o criamos. Somos especialistas em criar sentido para tudo. Essa capacidade humana, que muitas vezes gera inúmeros equívocos e conflitos relacionais, ou, por outro lado, torna bela qualquer situação da vida, livra-nos da angústia do não saber, do desconhecido, do inexplicável, da falta de sentido ou de razão. Como viver sem compreender a si mesmo, as pessoas e o mundo?

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