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Talvez o preconceito mais comum envolvendo a psicoterapia se resuma na seguinte frase: “psicólogo é para doido”. Pessoas de todas as classes sociais reproduzem essa visão. Algumas tentam evitar o preconceito com eufemismo, dizendo: “psicólogo não é só para doido, mas para pessoas com problemas emocionais graves”. Porém a essência do erro é a mesma nos dois casos. Ainda é um mistério para muitas pessoas o que o psicólogo faz e, principalmente, como ele faz.

O primeiro desafio clínico que todo psicólogo enfrenta é evitar que a psicoterapia se transforme em uma sessão de desabafo. Esse desafio clínico, aliás, desafia outro preconceito comum sobre a psicoterapia, resumido na seguinte frase: “eu não preciso de psicólogo, não preciso de alguém para desabafar”. Algumas pessoas procuram o psicólogo em situação de extrema fragilidade e, por isso, não conseguem fazer nada além de desabafar. O psicólogo está ali para apoiar. Mas acolher o desabafo está longe de ser a função clínica mais importante e, principalmente, a mais efetiva. Em resumo, a psicoterapia é um espaço de reflexão. Os temas trabalhados afetam profundamente as emoções, mas sua externalização não é o objetivo primordial.

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A definição do contexto terapêutico como um espaço de reflexão nos mostra um caminho para conhecer a psicoterapia e nos aponta também o que ela não é. O segundo desafio clínico do psicólogo é evitar dar conselhos. Como no primeiro, esse desafio confronta mais um preconceito comum, materializado quando alguém diz: “eu não preciso de psicólogo, não preciso que alguém me dê conselhos”. Muitas pessoas veem o psicólogo como um guru que sabe a melhor saída em situações difíceis. Entretanto, desenvolver a autonomia do cliente é um dos princípios básicos da psicoterapia e, inclusive, do código de ética do psicólogo. Ultrapassa a técnica, alcança a ética. E aconselhar é construir uma relação de dependência.

O terceiro desafio clínico envolve a capacidade técnica do psicólogo e a qualidade da relação terapêutica. O objetivo da psicoterapia é produzir reflexões eficientes, ou seja, capazes de desestabilizar premissas rígidas sobre a identidade e a vida do cliente. Ela mira a superação de problemas e o crescimento pessoal. Com mais leveza e flexibilidade, abre-se um mundo novo. As narrativas que construímos sobre quem somos e como o mundo funciona muitas vezes nos paralisam, impedem-nos de enxergar alternativas disponíveis. Potencialidades necessárias ficam escondidas e a vida começa a se desvitalizar. Então passamos a acreditar que o problema está no funcionamento errado do mundo. No entanto, o que precisa mudar de verdade é nossa forma de se posicionar nele. Para isso, é essencial mudar a forma de vê-lo.

Costuma-se dizer que a psicoterapia precisa introduzir diferenças na narrativa do cliente. Como em toda reflexão, são os elementos diferentes do habitual que são capazes de produzir mudança. O desafio clínico, então, é introduzir diferenças que não sejam pequenas demais para não serem imperceptíveis ou grandes demais para não produzir medo e resistência ou não serem assimiladas. É a diferença que confronta os lugares comuns da narrativa social sobre a psicoterapia e desestabiliza as premissas rígidas das pessoas. Em resumo, introduzir as diferenças na medida certa é o principal desafio do psicólogo.


Rodrigo Tavares Mendonça é psicólogo. Atende no Consultório de Psicologia Unitas. Contatos: 99828-6290 (Vivo), 99924-2528 (Tim e WhatsApp) e [email protected]

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