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Rodrigo Tavares Mendonça é psicólogo e especialista em psicoterapia de família e casal pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Contatos: [email protected] e (37) 99924-2528.
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Na semana passada, a atriz mineira Letícia Sabatella foi hostilizada ao passar por manifestação pró-impeachment em Curitiba. Manifestantes vestidos de verde e amarelo gritaram, entre outras ofensas, “tira esse lixo”, “fora, vagabunda”, “comunista”, “hipócrita”, “chora, petista” e “puta”. Os vídeos sobre o momento não mostram nenhuma provocação feita por ela. A única motivação para as ofensas foi a sua presença, já que a atriz milita contra o impeachment e discursou alguns meses atrás em evento para artistas de esquerda organizado pela presidenta Dilma.

A intolerância com quem pensa de forma divergente é um ponto que chama a atenção. Em entrevista ao jornal El País, Sabatella falou sobre o discurso de ódio que há no Brasil. “Há um desejo de morte, de aniquilação. O que eu experimentei foi isso, o desejo daquelas pessoas de que eu não existisse.” Mais à frente, ela completou: “Para resolver uma situação, em lugar de resolver o problema – fazendo uma reforma política, no caso do nosso país – as pessoas criam bodes expiatórios, desviando o foco. O bode expiatório vai ser aquele que elas vão malhar e destruir, até sentir que fizeram a sua catarse… Mas ninguém resolveu o problema. Não solucionaram a crise. Só destruíram alguém.”

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Essa narração do fato tem a ver com o que o biólogo chileno Humberto Maturana denomina conversação de caracterização. Definindo formas de conversar, Maturana enfatiza aquela que caracteriza o outro, que o define pelos termos de quem fala e não por quem é definido. Esse tipo de conversação é absolutamente comum, ocorre cotidianamente em qualquer lugar do mundo. Estamos a todo momento caracterizando alguém, ou seja, nomeando uma parte de sua identidade ou um traço de sua personalidade a partir da interpretação que fazemos de seus atos. Contudo, dificilmente nos damos conta de que caracterizar o outro, já que o fazemos a partir de nosso próprio ponto de vista, é a raiz de inúmeros equívocos e conflitos relacionais.

Todas as ofensas recebidas por Sabatella citadas acima têm em comum a conversação de caracterização, já que definem a atriz por algum adjetivo pejorativo. Outro ponto em comum é o rebaixamento à condição de ser humano inferior que essas caracterizações promovem. “Lixo”, “vagabunda”, “puta” e “petista” são, aos olhos de quem as usa, caracterizações de pessoas que não merecem a mesma qualidade de vida que aquelas de condição superior. Por isso a atriz citou o desejo de morte. Reduzir o outro a uma condição de ser humano inferior é o primeiro passo para exterminá-lo sem remorso. Sabemos como os nazistas viam os judeus e como os negros pobres das periferias são vistos todos os dias por nossos policiais.

A psicóloga americana Susan Fiske conduziu recentemente uma pesquisa impactante que demonstra como a caracterização pejorativa retira a humanidade de uma pessoa. Mostrando fotografias de pessoas de baixo status social, como viciados em drogas, mendigos e imigrantes, ela percebeu, por meio de scanner do cérebro, que os voluntários tendiam a ativar padrões cerebrais relacionados à visão de objetos – não de seres humanos. Isso mostra biologicamente a capacidade que temos de desumanizar pessoas ou grupos indesejados construindo socialmente, por meio de conversações de caracterização, significações inferiorizantes.

O atual momento político brasileiro, marcado por forte polarização de opiniões, é um prato cheio para o surgimento de caracterizações que inferiorizam pessoas, retirando delas sua condição de humanidade. Como aconteceu semana passada em Curitiba com Sabatella. E já sabemos onde tudo isso termina.

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