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(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
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Famosa por seu lago, a produção de caramelos há mais de 80 anos e fileiras de canaviais, Lagoa da Prata, distante 211 quilômetros de Belo Horizonte, agora empresta o céu à tecnologia avançada dos veículos aéreos não tripulados, os chamados Vants, popularmente conhecidos como drones. Voando no espaço aéreo próximo da cidade de 46 mil habitantes, o avião robô batizado de Titan – na mitologia, os gigantes titãs tentaram destronar Júpiter, senhor dos deuses romanos –, exibe envergadura de 3,8 metros. É mais do que o alcance de um condor-dos-andes, a maior ave de rapina do mundo.

Capaz de voo autônomo, mediante rota programada, instalada num sistema de controle de voo embarcado e com a supervisão de piloto que opera uma estação em solo, a aeronave inspecionou, na manhã da última quarta-feira, linhas de transmissão de energia nas proximidades de Lagoa da Prata. A tarefa cumprida pela 41ª vez neste ano confirmou a possibilidade de o drone profissional promover uma espécie de revolução na perigosa rotina da inspeção de torres e cabos de alta tensão.

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Missão para o bem, nos Estados Unidos e na Europa as aeronaves não tripuladas alimentam polêmica como armas de guerra. Nos conflitos do Paquistão, há estimativas de que elas já teriam desferido centenas de ataques, matando 3 mil pessoas. No Brasil, só os voos experimentais ou específicos são autorizados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Não passa de uma dezena o número de drones para os quais a Anac emitiu certificados de autorização de voo experimental, o Cave, em vigência desde o ano passado.

O Estado de Minas acompanhou na zona rural de Lagoa da Prata o voo e o trabalho da equipe que criou e opera o protótipo Titan. O avião foi projetado e construído em BH por um grupo de profissionais de engenharia, física e design da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e sua parceira no investimento de R$ 4 milhões, a fundação privada FITec Inovações Tecnológicas, especializada em pesquisa e desenvolvimento nas áreas de comunicação e tecnologia da informação.

As habilidades do avião em formato de cruz, de 1,70m de comprimento e com autonomia de 2 horas de voo, alcançam mais serviços também de altíssimo risco. Entre outras aplicações, ele poderá inspecionar barragens, monitorar áreas de preservação ambiental, matas ciliares e vigiar o patrimônio público em locais de difícil acesso. Ao longo das áreas de servidão das redes elétricas, é possível verificar invasões de terra, erosão do solo ou crescimento de vegetação debaixo das linhas e no entorno das torres de transmissão de energia.

Os testes em Lagoa da Prata são ainda silenciosos e entraram na etapa final de desenvolvimento do projeto iniciado há cerca de quatro anos pela Cemig e a FITec, com matriz em Recife e filiais em BH, São José dos Campos e Campinas (SP). Em no máximo cinco meses, a aeronave já poderá ser apresentada como uma ferramenta promissora que a concessionária terá em mãos para tornar o sistema de inspeção mais seguro e abrangente, além de reduzir custos, explica o coordenador do projeto pela Cemig, o engenheiro eletricista Maurício de Souza Abreu.

Como ele, o físico Antônio Hamilton Magalhães, coordenador técnico do projeto e consultor da FITec, acredita no poder que os drones profissionais e de uso comercial têm de promover uma revolução na indústria e nos próprios hábitos da sociedade, mas alerta para o fato de que a regulamentação do uso dessas máquinas, ainda inexistente no Brasil, é fundamental. “A estrutura do espaço aéreo tem de ser organizada para contemplar essas novas tecnologias”, afirma.

Em Lagoa da Prata, não mais de 5 minutos são suficientes para que o avião robô Titan deixe a pista de decolagem e ganhe altura para seguir no piloto automático. Na decolagem e pouso, a aeronave é operada por controle remoto, substituído em voo pelo modo controlado por um computador de bordo e supervisionado por equipe técnica.

DESAFIOS VENCIDOS

Os pesquisadores aplicaram no protótipo todo o conceito aeronáutico. O avião não tripulado pode voar a uma altura de 150 metros ou mais do ponto de decolagem, e atingir 812 metros de altitude. Antônio Hamilton Magalhães destaca outros desafios vencidos pelo avião robô. A fuselagem foi desenvolvida para abrigar um gimbal de vídeo, esfera articulada que neutraliza as oscilações laterais, dando estabilidade às imagens captadas pela aeronave e que funciona, também, como rastreador, mapeando o caminho trilhado dos ares.

As imagens captadas enquanto a avião não tripulado faz a inspeção são transmitidas em tempo real para a estação em solo e também gravadas em um computador de bordo, no qual foram registrados o planejamento do voo e a definição dos pontos de passagem, por meio de um sistema de informações georreferenciadas. Cada elemento do mosaico gerado pela obtenção das imagens equivale a 3,5 centímetros no solo varrido pela aeronave. Na partida e sustentação do protótipo, o impulso é dado por motor a combustão de 55 cilindradas movido a gasolina. A velocidade, que no pouso e na decolagem não pode ser inferior a 65 quilômetros por hora, atinge 140km/h.

O custo do protótipo, que suporta até 25 quilos, incluindo o próprio peso, não foi divulgado. Há uma boa referência de mercado de preços dos drones comerciais com autonomia de voo: entre R$ 200 e R$ 800 mil. As horas de trabalho não foram poucas para chegar ao Titan que sobrevoa a área rural de Lagoa da Prata. A aeronave tomou forma em fibras de vidro, como os aviões comerciais, e de carbono, estas últimas usadas em peças de carros da Fórmula 1. Aficionados pelo personagem do Cavaleiro das Trevas, o Batman, ficariam curiosos em relação ao uso de kevlar, fibra sintética de aramida de alta resistência que teria sido aplicada na vestimenta do herói levado às telas do cinema, entre outros materiais especiais escolhidos pelos criadores do drone mineiro inspetor.

RAIOX

Perfil do avião robô Titan
•1,70 metro de comprimento
•3,80 metros de envergadura
•140km/h de velocidade máxima

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