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Quando me distinguem com alguma honraria ou premiação, tenho o hábito de olhar para mim mesmo na busca de razão plausível para aceitá-la ou não, ciente dos horizontes de luz e escuridões que permeiam tais iniciativas em cenário de tanta vaidade, onde existe gente que vislumbra no árduo trabalho da literatura e da poesia um símbolo de glamour e prestígio, à maneira de um pódio intelectual. Enfim, independentemente do processo de escolha, eu mesmo devo encontrar a devida justificativa para recebimento da outorga a mim conferida.

Ao receber comunicação do colunista Eustáquio Félix, criador e promotor de eventos culturais em Itabira/MG, que de maneira espontânea (em decisão de âmbito pessoal) se lembrou de meu nome, na condição de sabedor da minha produção poético-literária iniciada com a edição do primeiro livro em 1977, somando hoje 20 títulos e mais dois à espera do alvissareiro parto gráfico, pus-me a divagar por alguns dias sobre a questão, principalmente pelo fato de a solenidade sociocultural estar marcada para acontecer no dia do aniversário de minha esposa Nina (5 de maio de 2018) e, também, por eu enfrentar problema de tratamento de saúde, que me desaconselha os conhecidos atropelos de uma viagem.

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Terminei por aceitar a homenagem como uma deferência à minha trajetória de autor independente, que aos trancos e barrancos foi vencendo os obstáculos e a velha pedra que permanece no caminho dos que abraçam o dom da arte da palavra escrita, apesar de todos os rigores e intempéries da caminhada em meio ao atrevimento da ignorância, prestigiada e programada pelos próprios poderes constituídos, que se sentem mais seguros quando cercados pela miséria cultural – certamente a pobreza maior de todo e qualquer povo!

Nos últimos anos, tenho andado meio alheio e distante do meu derredor, voltado quase que exclusivamente para a elaboração de meus livros perante a barbárie promovida pela indústria do espetáculo com força suficiente para trazer à tona um monte de composições musicais comerciais e rapidamente assimiladas pelos jovens, aos quais é passada a ideia errônea de que tudo que leva à reflexão é um entrave ao lazer, criando terreno favorável ao germinar de ruidoso e sonoro “livrai-nos dos livros”. Não é à toa, portanto, que o Brasil se nos apresenta com índices de leitura tão baixos e com tendência a caírem cada vez mais, alicerçando e garantindo o sucesso dos projetos de dominação perpetrados contra a construção de uma nação capaz de acolher todos os brasileiros.

Então, movido pelas razões semeadas em duas dezenas de livros de minha autoria (todos eles disponibilizados, em livre e total acesso, no site que mantemos no ar desde o dia 5 de junho de 2005 – www.carlosluciogontijo.jor.br), receberei pelo correio a premiação “Personalidade Literária Troféu Guimarães Rosa” conduzido, exclusivamente, pela crença e pela fé no sentimento e na sensibilidade que norteiam (ou deveriam nortear) a convivência em sociedade. Afinal, como escreveu Guimarães Rosa, “Viver é um rasgar-se e remendar-se”. E espero que um dia concluamos as nossas intangíveis costuras físicas e mentais, constituindo um belo e perfeito tecido humano.


Carlos Lúcio Gontijo

Poeta, escritor e jornalista

www.carlosluciogontijo.jor.br

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