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Após a vitória de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos o ator inglês Tom Walker, interpretando o personagem Jonathan Pie, gravou um vídeo que viralizou no YouTube. Ele, um cidadão de esquerda, culpou a esquerda americana pela derrota de Hillary Clinton. Ainda no vídeo, o ator culpou a esquerda britânica pelo plebiscito favorável ao Brexit. Leia os principais trechos: “Nem todos que votaram em Trump são machistas ou racistas, alguns são, mas a maioria não. A maioria das pessoas não votou nela não porque ela é mulher, a maioria não votou nela porque ela não ofereceu nenhuma mudança palpável, apenas a mesma merda de sempre. (…) Quantas vezes vamos perder até perceber que nossos argumentos não passam de insultos e rótulos? (…) Quando vamos aprender que a chave é a conversa? Se você abre mão de conversar você cria as condições para Donald Trump e gente como ele prosperar. Mas eu não posso falar isso para nenhum de meus amigos, gente como eu. Eu seria linchado se dissesse isso, porque gente como eu não ia escutar. (…) A esquerda é responsável por esse resultado, porque decidiu que qualquer outra visão de mundo, qualquer outra opinião é inaceitável. A esquerda não debate mais porque venceu a guerra cultural. Então, se você é de direita, você é uma aberração, é malvado, é racista, é estúpido, parte de uma cesta de deploráveis. Como você acha que as pessoas vão votar se você fala assim com elas? Quando é que alguém foi convencido por ser insultado ou rotulado? (…) Pare de pensar que tudo o que discorda de você é malvado ou racista ou machista ou estúpido e converse com eles, convença-os do contrário.”

A esquerda brasileira está como as esquerdas americana e britânica definidas por Walker, perdeu a capacidade de dialogar, apenas insulta e rotula quem pensa diferente. Quem se identifica com o pensamento conservador é considerado racista, machista, xenófobo, homofóbico, elitista ou fascista. Quem é contra cotas em universidades é racista, quem é contra a legalização do aborto é machista, quem é contra receber imigrantes é xenófobo, quem é a favor do estado mínimo é elitista, quem defende o porte de arma de fogo é fascista. Parem com isso! Dessa forma, não espanta que Jair Bolsonaro, em certo sentido o Donald Trump brasileiro, tenha chance real de vencer a próxima eleição presidencial. Nós, cidadãos de esquerda, não dialogamos mais. Achamos absurdo criar um muro entre o México e os Estados Unidos, mas criamos vários muros entre os racistas e nós, os machistas e nós, os xenófobos, os homofóbicos, os elitistas, os fascistas. Como se eles fossem assim, já prontos e acabados, ou feitos de matéria orgânica diferente da nossa. Nós os definimos como inimigos criando rótulos que retratam somente a caricatura que fizemos deles, sem contemplar suas complexidades. Eles se tornaram exclusivamente inimigos a serem derrotados, não pessoas a serem ouvidas. Assim, nossos argumentos apenas os empurram para a extrema direita, em vez de atraí-los para a esquerda. E quando esses argumentos não funcionam achamos que o problema está na sua visão de mundo insensível ou preconceituosa, não nos nossos argumentos. Perdemos a capacidade de ouvir.

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Estamos criando as condições perfeitas para que a extrema direita prospere, arregimentando pessoas mais pela rejeição à esquerda do que pela identificação à direita. Precisamos perceber ainda que a onda conservadora presente atualmente em muitos países é fruto, em certa medida, do fracasso da esquerda em propor soluções eficazes para melhorar a vida em sociedade. A esquerda perdeu o contato direto com os pobres e não atende mais aos seus anseios. Talvez por ter vencido a guerra cultural da qual fala Walker, a esquerda se tornou arrogante.

Rodrigo Tavares Mendonça é psicólogo, atende no Consultório de Psicologia Unitas, no Lagoa Shopping. Contatos: 99924-2528 (Tim), 99828-6290 (Vivo) e [email protected]

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