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Rodrigo Tavares Mendonça é psicólogo e especialista em psicoterapia de família e casal pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Contatos: [email protected] e (37) 99924-2528.
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Talvez a missão mais importante na vida de todo ser humano seja encontrar o próprio desejo, reconhecer-se fielmente no espelho, olhar e dizer que se é quem gostaria de ser. Não à toa o último livro do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que tanto pensou sobre a existência humana e o sentido da vida, recebeu o nome de “Ecce homo – como alguém se torna o que é”. O livro foi escrito poucas semanas antes de enlouquecer em decorrência da sífilis, doença que apanhou ainda na juventude. Contudo, como mostra o livro, o melancólico filósofo cumpriu sua missão, conseguiu ser quem realmente era, lidando honestamente com sua alegria e seu enorme sofrimento. Ele não se negou, mesmo com toda a carga que isso lhe trazia. “Quem tem por que viver suporta quase qualquer como”, escreveu certa vez.

Nietzsche ainda escreveu o que chamou de eterno retorno. Refletindo sobre a existência, perguntou a um interlocutor imaginário: se um demônio lhe aparecesse e dissesse que, após sua morte, você viveria eternamente de novo, em um ciclo sem fim, toda a sua vida, tudo o que viveu, cada minuto e segundo, cada alegria e tristeza, cada sucesso e fracasso, cada encontro e desencontro, o que você diria? Como reagiria?, pergunto a você, leitor. “Tu és um deus!”, exclamou o filósofo ao demônio imaginado, após vislumbrar a potência do próprio pensamento. A essência do eterno retorno é: você está fazendo sua vida valer a pena a ponto de querer tornar a vivê-la infinitas vezes? Em outras palavras: sabendo que você viveria infinitas vezes o mesmo momento, qual a próxima escolha que você tomaria em sua vida? O eterno retorno é a melhor benção e a pior punição.

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Sabemos que o bem-estar psicológico depende da congruência entre as metas explícitas e implícitas que estabelecemos para nossas vidas e que às vezes estamos conscientes porém não raro estamos completamente inconscientes da sua amplitude. Costumeiramente agimos com certo intuito mas nossa real motivação permanece oculta. Quando você visita sua mãe sua motivação pode ser saudade, mas, ao mesmo tempo, sem se dar conta, querer sua aprovação por ter tomado uma decisão importante. Você pode querer ganhar dinheiro para ter conforto, porém inconscientemente desejar o sucesso financeiro para obter o reconhecimento do pai. É possível até que uma mulher queira ter um filho para ser mãe pela primeira vez, no entanto esperar, no fundo, que a criança venha para salvar seu casamento.

Os exemplos citados têm em comum a contradição entre o desejo inconsciente e a vontade consciente, que geralmente se baseia na ética e na razão, enquanto o lado mais obscuro da personalidade se move essencialmente pela emoção. Contudo, há um padrão diferente de incongruência entre as metas explícitas e implícitas. O psicólogo brasileiro Miguel Mahfoud, professor na Universidade Federal de Minas Gerais e pós-doutor em ciências humanas pela Pontificia Università Lateranense, na Itália, desenvolveu uma teoria sobre as exigências fundamentais que o ser humano faz a si próprio. Uma delas é a de justiça. Segundo ele, perceber injustiça gera desconforto. Às vezes, a vontade vingativa de matar bandidos ou crianças e adolescentes infratores, por exemplo, muito em voga atualmente, contradiz a própria exigência interna de justiça – ou de amor, também uma exigência fundamental. Assim, o alcance da meta explícita, por mais racional e desejada, pode gerar angústia ou insatisfação, caso contradiga uma exigência interna. Quantas vezes nos sentimos mal por não dar carona ou esmola, mesmo com justificativas razoáveis para tal? Quantos dos apoiadores da pena de morte estão dispostos a puxar o gatilho? E, mesmo entre os dispostos, quem sairia feliz após a execução? O motivo é que o ato de assassinar pode contrariar uma exigência interna do ser humano, como a de amar.

Acertar os dois ponteiros (da meta explícita e da implícita) é o caminho para o bem-estar psicológico. E não só: tornar-se o que é significa impedir que suas metas o conduzam por direções divergentes, fazendo-o se mostrar incongruente ou agir sem vontade. Mas como fazer isso? O segredo é seguir o próprio desejo, deixá-lo livre, sem domá-lo com as rédeas da ética e da razão? Certamente não. Nossos desejos costumam ser traiçoeiros e causar prazeres momentâneos e infelicidades duradouras, contrariando as próprias exigências internas. Aparentemente, as saídas são duas: discipliná-lo ou mudar sua lógica. Disciplinar o desejo é não deixá-lo dominar suas ações, fazendo-o desviar de seus objetivos na vida. É não satisfazê-lo e seguir seus propósitos conscientes, pois, como vimos, o desejo pode contradizer uma meta explícita ou exigência interna. Contudo, apenas não satisfazer desejos e seguir as metas racionalmente estabelecidas certamente causará muita angústia e infelicidade, pois que vida valeria a pena sem vontade e prazer de viver? Assim, muitas vezes o que necessitamos é mudar sua lógica. Compreender a motivação inconsciente, ou nossas metas implícitas, é essencial para mudá-lo. Às vezes, o desejo inconsciente de destruir ou sabotar os próprios relacionamentos amorosos, por exemplo, satisfaz uma crença de não ser merecedor de amor nenhum. Nesse caso, mais interessante que discipliná-lo é modificar sua raiz, compreendendo o que sustenta uma crença tão incapacitante como essa. Após desconstruí-la, o desejo se liberta e pode ser direcionado para o alcance das metas que se estabelece para a própria vida. E é assim que alguém se torna o que é.

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