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Carlos Lúcio GontijoPoeta, escritor e jornalistawww.carlosluciogontijo.jor.br
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Vivemos em um mundo de idealismo escasso. Os políticos de hoje só se sentem responsáveis pelos problemas sociais se estiverem investidos de algum mandato. Ex-prefeitos ou ex-vereadores, em cidades grandes e pequenas, assistem seu município ruir e não movem uma palha, agindo como se não fizessem parte da sociedade à qual um dia comandaram.

Há muito tempo, não voto em candidato a vereador que alega poder, uma vez eleito, fazer muito mais pela comunidade. Na maioria das vezes, trata-se de pessoa com relevante trabalho comunitário, buscando uma explicação minimamente palatável para a sua entrega à cooptação, ou sedução pelas benesses oficiais da vereança.

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Minha proximidade profissional com o jornalismo, a literatura e a poesia me passa a certeza de que estamos mergulhados num contexto de falta de amor e interpretação de texto – fruto do materialismo egoísta e da espantosa quantidade de analfabetos funcionais. Assistimos a um radicalismo político sem precedentes, com muita gente jogando os ensinamentos da história brasileira na lata de lixo e colocando-se como defensor explícito do retrocesso e, em alguns casos, apresentando o pelourinho e as masmorras como se fossem novos projetos de luz e libertação democrática.

A vida inteira, à maneira e uma espécie de norma para viver em paz, eu tentei mover-me sempre à distância daqueles que não veem nada além si mesmos. Contudo, não há como fugir dessa tragédia com a manutenção, por exemplo, de uma conta no “facebook”, onde a pessoa se sente anônima na multidão e, assim, a individualidade encontra o seu habitat perfeito, a ponto de as monstruosidades e demonstrações explícitas de intolerância, preconceito e racismo saírem tranquilamente do armário, com toda a pompa, circunstância e língua mais afiada que a guilhotina da Bastilha.

Não há na atual conjuntura qualquer possibilidade de estabelecimento de diálogo, pois todos abraçaram a surdez que se apropria de todo dono da verdade, que não está nem aí para abrir espaço em sua trincheira de luta fundamentalista, na qual a opinião contrária não deve ser sequer ouvida e se possível eliminada.

Confesso-lhes que tenho a minha página virtual na internet como se fosse um mural de divulgação de minha obra literária, apesar da consciência de que poucos (ali) se interessam pelo assunto. Se posto alguma mensagem de autores como Carlos Drummond ou Guimarães Rosa, observo que a repercussão é quase que zero, comprovando que nossos intelectuais de relevo no mundo da literatura e da poesia são apenas símbolos citados em discursos, numa forma de falsa demonstração de erudição, mas efetivamente não são lidos pelos deslustrados agentes que pinçam suas frases.

Basta um rápido estudo do quadro político de qualquer uma das pequenas cidades do interior brasileiro, para se chegar à conclusão de que no Brasil a política é um intrincado jogo de interesses imediatistas, no qual o poder público é tratado como coisa de ninguém, tanto pela população quanto pelas autoridades legalmente constituídas, que negociam inescrupulosamente os cargos da máquina administrativa, sangrando os cofres públicos e levando os municípios à bancarrota.

Lamentavelmente, quando falamos em corrupção política somos obrigados a nos remeter à sociedade, que é de onde saem os nossos representantes, que uma vez eleitos repetem no exercício de seus mandatos os mesmos ilícitos e os mesmos “jeitinhos” inseridos no relacionamento cotidiano entre os cidadãos, onde todos querem levar vantagem em tudo, pouco se importando com o avanço de uma sociedade em que é natural o mais capaz ser substituído pelo mais sagaz, confundindo inteligência com a malandragem da esperteza.

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