COMPARTILHAR
Continua depois da publicidade .

O Maria veio da avó paterna, o Lúcia, da materna. Mas durante muito tempo isso foi ignorado. Era apenas Lulu. Lulu do papai, da mamãe, dos tios, dos padrinhos, dos primos e de toda a vizinhança. Também aquele bebezinho fofo, pequeno e rechonchudo poderia ser chamado de quê senão de Lulu?

Aos sete foi pra escola. A coisa lá era meio impessoal. Teve um pequeno baque ao se ouvir na chamada “Maria Lúcia Siqueira Pimentel de Lima”. Relutava um pouquinho antes de dizer meio baixo, meio apagadinho “presente”… Presente? Presente mesmo era ganhar aquele nomão de elefante! Ainda mais pra quem vinha de um doce e minúsculo “Lulu” de um passado ali, ainda tão recente…

Continua depois da publicidade .

Na adolescência, crise geral! Rebelde, repudiou avó materna, avó paterna, pai, mãe, tios, padrinhos, primos e toda a vizinhança. Pura crise de identidade mesmo! Quem sou eu? A que grupo pertenço? Cadê minha tribo? Perguntas que se fazia enquanto enveredava pelo ousado mundo das boates, roupas pretas, sonzão e cigarros (naquele tempo um Hollywood já era o fim!). Foi nessa época que negou o próprio nome. Para a turma era só Malu, o que, devido a detalhes de conduta, naturalmente não demorou a derivar para Malu/ca…

Passado o vendaval, a calma. Ela criou juízo, foi se enquadrando aos pouquinhos. Voltou pra escola (sim, porque tinha deixado, lógico!). Redescobriu-se numa moça tranquila, sossegada, com a cabeça mais no lugar (e aí, nem era exatamente sobre o pescoço, era amadurecimento mesmo). Assumiu o Maria Lúcia com muita honra e dignidade. Foi nessa época que descobriu Vinícius de Moraes, sentindo-se, inclusive, profundamente homenageada por um soneto dele “Teu nome” que começava exatamente assim “Teu nome, Maria Lúcia”…

Ah, não podia dar outra. A moça ajuizada, admiradora de poesia, logo caiu nas graças do professor de Português, José Leonardo Martins de Araujo, mais conhecido Leo, pela moçada que era fã dele. Quem não gostaria de namorar o Leo? Todas! E Maria Lúcia também, é claro. Dois anos depois, diante do Juiz de Paz ela assinava seu novo nome “Maria Lúcia Siqueira Pimentel de Lima E Araujo (o ‘E’, para não dar cacofonia, é evidente! Um professor de Português jamais deixaria passar isso batido, pois não?)…

Muitos, muitos anos… E lá vemos nossa personagem feliz da vida tecendo um sapatinho cor-de-rosa… Ué, para quem? Para a netinha que vai chegar em breve. Entre agulhas e linhas ela sonha com a menina que há de ser, nem que seja um pouquinho, parecida com certa Lulu de tempos atrás… Ah, detalhe: vai querer ser chamada de Vó Lucinha… Vó Lucinha… Olha que doçura, gente…

Marina Alves é escritora e membro da Academia de Letras de Lagoa da Prata

Deixe o seu comentário e compartilhe no Whatsapp