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Nesta época em que as conversas virtuais se tornaram comuns e as confissões íntimas caem na Internet sistematicamente, muita gente pode ter se esquecido do tempo em que dúvidas indiscretas eram reveladas nos cadernos de perguntas que circulavam nas brincadeiras infantis, linhas cheias de ousadias.

Os amigos ficavam sabendo das opiniões e dos desejos alheios por meio das conversas escritas no misterioso caderno. Afinal, ele não caía na mão de qualquer um. Quem contasse algo mais íntimo, porém, caía na boca dos outros, na metáfora e na literalidade. O resultado do conteúdo da lista era o beijo na boca ou ser o assunto do dia.

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As perguntas eram bobinhas, mas revelavam intenções reais. Em cada página um enigma. As primeiras questões serviam para a apresentação física: cor dos olhos, do cabelo, da pele. Depois, vinham as cobiças relacionadas à pessoa amada: “como é a menina (o menino) que você gosta?”; “ela (e) mora na nossa rua ou estuda na nossa sala?”; “você já beijou alguém que está citado na página anterior?”. Era muito emocionante ler as respostas e se enxergar nelas.

Beijar alguém era a comprovação da maturidade, na ingênua análise do mundo. Éramos tão puros que comparávamos o sabor do toque entre lábios aos sabores de frutas exóticas. No caderno, a pergunta: “qual o sabor do melhor beijo que você já deu?”. Talvez, muitos de nós, não havíamos sequer experimentado nem o beijo nem a fruta que reinava na lista, por isso a analogia do desejo enrustido. Antigamente, a fruta dos cafés de novela, da ilusão criada pelos filmes românticos da Sessão da Tarde, dos sonhos de qualquer criança que só comia banana e abacaxi, era o inatingível pêssego. Caro, inacessível e raro no sacolão, só tinha na mesa dos ricaços. Pêssego era o sabor mais cobiçado!

O prazer do beijo era o desejo do pêssego. Ele simbolizava a materialização das paixões, dos sonhos íntimos, das conquistas almejadas. Era o clímax de toda história de amor. Um fruto de casca aveludada, de cores incomuns, de fragrância especial, de sabor adocicado. Era degustado calmamente, para que nenhum dos sentidos se perdesse naquele momento único. Os lábios, a saliva e os dentes se encontravam com a fruta silenciosamente. Os olhos fechados para que a memória gravasse o gesto, para que a língua captasse o sabor em sua intensidade. Pêssego era o anseio pela pessoa amada, o alcance do mais exótico dos prazeres. Beijar alguém pela primeira vez tinha esse gosto de fantasia. E o caderno sabia de tudo.

14/10/2013. Credito: Marcos Michelin/EM/D.A Press. Brasil. Belo Horizonte - MG. Reporteres TV Alterosa - Reporter Juliano Azevedo.
14/10/2013. Credito: Marcos Michelin/EM/D.A Press. Brasil. Belo Horizonte – MG. Reporteres TV Alterosa – Reporter Juliano Azevedo.

Juliano Azevedo é jornalista, mineiro, Chefe de Redação da TV Alterosa/SBT Minas, Mestrando em Estudos Culturais Contemporâneos pela Universidade FUMEC, Professor de Redação Publicitária na Faculdade INAP, Escritor e Palestrante. Blogueiro no www.julianoazevedo.blogspot.com, twitteiro no perfil @julianoazevedo, internauta no e-mail [email protected], fotógrafo no Instagram @julianoazevedo. Um fã de pêssego, de viagens, de livros, de histórias.

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