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Pra contar do Dodico, temos que falar da Val, não tem jeito. Valdirene ou Valdilene (o contista não sabe ao certo) era filha da senhora Magdalena e seu Anísio. Dona Magdalena era o braço direito do padre na comunidade.

Seus conhecimentos culinários eram o diferencial em todas as festas católicas na cidade. Quer fosse novena, ensaios, encontros, festas, recepções… tudo era promovido pela dona Magdalena. Mulher abnegada e reconhecida na cidade pela sua devoção e religiosidade. Lavava as roupas do padre e auxiliava em tudo na igreja.

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Seu Anísio por sua vez, era homem pacato, o típico mineiro. Ia nas missas ao domingo. Acordava cedo e dirigia-se à pequena fazenda para trabalhar todos os dias. Tinha algumas cabeças de gado, algumas criações. Plantava café, milho, feijão e cana. Mas sua paixão mesmo era o pequeno alambique nos fundos da fazenda. Ali ele conseguia produzir uma boa cachaça, conhecida na capital pela exuberância do sabor e do cheiro. Quem bebia, nunca dizia ser cachaça mas qualquer outro tipo de bebida estrangeira.

Seu Anísio foi convidado para várias festas de cachaça e disputas, concursos de cachaça, alguns internacionais. Voltava quase sempre com alguns pedidos vultosos, que ele nunca conseguia atender, pela quantidade. O alambique passou a ser um dos principais negócios do seu Anísio. Dona Magdalena na igreja, seu Anísio no alambique.

Seu Anísio voltava tarde da fazenda, quando voltava. Chegava em casa e quase sempre a dona Magdalena já estava dormindo. Viam-se mesmo, de verdade aos domingos, quando então conversavam e ficavam um do lado do outro, falando sobre a semana. Fruto dessa união nasceram filhos.

Nasceu também a única filha do casal, Valdirene, apelidada desde criança de “Val”. Val cresceu com a ausência tanto do pai quanto da mãe. A caçulinha era adulada por parte dos irmãos e ignorada pelos outros. Cresceu com raiva da igreja porque nunca via sua mãe. Cresceu com raiva de alambique, de pinga, porque sempre as roupas do pai estavam com cheiro dela.

Seu Anísio era um apreciador de cachaça e invariavelmente, apresentava-em casa “alterado”, falando alto, gesticulando, gritando, muito embora fosse calmo e paciente.

Chegou ao alto dos 20 anos dessa forma, cuidando dos afazeres da casa, dadas as ausências tanto da mãe quanto do pai. Cresceu amargurada, calada, quase sempre de mal com a vida. Sentia-se incompreendida e infeliz.

Na fazenda nasceu um menino, filho dos caseiros, que praticamente cresceu junto aos pais e junto ao seu Anísio: Francisquinho. O caseiro era Antonio Francisco, vulgo “Dico”. Fransquinho do Dico, “Dodico”.

Sempre próximo ao seu Anísio, de tudo conhecia na fazenda. Aos poucos foi se tornando o braço direito do seu Anísio em tudo. Sabia o nome de todas as vacas, quantidade de veneno pra plantação, quantidade de produção, manejo das vacas, produção do alambique, tudo. Seu Anísio a cada dia confiava mais em Dodico.

Os pagamentos passaram a ser entregues ao Dodico, visto que ele sempre ficava com os cartões, senhas, cheques e boletos do patrão. Com o falecimento dos pais, Dodico continuou na fazenda. O tempo passou e ele agora, homem feito, tomava conta da fazenda do patrão com “espírito de dono”. O casamento com a Val foi mesmo um arranjo.

Dodico contava que quando dançaram na quermesse pela primeira vez, foi tanta alegria para os pais da Val, que ela achou mesmo que fosse amor… Com a benção do padre e a alegria da dona Magdalena, casaram-se. Contudo, um casamento sem amor não dá fruto algum. Val não conseguia ter filhos. E o Dodico, a exemplo do seu Anísio, passou a preferir a fazenda a cada dia.

Primeiro foi dona Magdalena. Faleceu chegando em casa, depois de mais um dia de dedicação na igreja. Passados poucos meses, quase quatro, seu Anísio também deixou os filhos e a fazenda. Por decisão dos irmãos, a casa principal foi vendida. A fazenda iria continuar da mesma forma e iriam remunerar Dodico para que ele permanecesse cuidando da fazenda e dos bens de todos os irmãos.

Só um detalhe. O seu Anísio quando faleceu, caiu dentro de um dos tanques de cachaça. Quando o encontraram, estava morto dentro de um dos tonéis. Dodico não havia contado a ninguém que o encontrou ali. Um dos funcionários da fazenda é que percebeu o forte cheiro de cachaça que saía das roupas do patrão e contou numa venda. A notícia se espalhou. Dodico nunca confirmou este relato. Contudo, nunca também o negou.

Certo é que Dodico continuou vendendo a cachaça famosa, cujos segredos conhecia muito bem. Altamente rentável, participou de uma feira internacional de cachaça, tendo saído de lá com muitas recomendações importantes e também centenas de pedidos, a maioria deles com pagamento adiantado.

Dodico, segundo o contista, não por esperteza, mas por tentar salvar a “cabeceira” da pinga e também o “rebordo”, ou seja, o resto, passou a envazar também estes dois subprodutos, vendendo-os a preço módico, barato. Só que o problema era o nome da pinga: Pinga do defunto.

Isso causou um descontentamento familiar enorme. Os irmãos foram pra cima do Dodico. Teve briga mesmo, de pancada, facão e tiro. O Dodico bateu em um, apanhou de outro, deu tiro, correu pra não tomar tiro, e a Val, por causa disso, adoeceu. Passado algum tempo, foi diagnosticada com a mesma doença da mãe, um coágulo na cabeça, e faleceu.

Dodico vendeu sua parte na fazenda, desmanchou os apetrechos do segundo alambique, que ele mesmo criou, construiu, com o dinheiro do envazamento do remanescente da primeira pinga outro alambique e por desgosto, sumiu.

Então a Pinga do Defunto, tão falada em Curvelo e Buenópolis assim nasceu e sumiu nos tempos.

Histórias que o povo conta…

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