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Rodrigo Tavares Mendonça é psicólogo. Contatos: (37) 99924-2528 e [email protected]
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Fazendo uma breve volta ao tempo nos encontramos na Europa do século XVII. Lá, a vida em família era muito diferente da de hoje. Consideramos natural a família ter seu espaço privado e enfatizamos a autoridade exclusiva dos pais sobre os filhos e a igualdade entre marido e mulher. Entretanto, o que atualmente pertence à esfera privada era de domínio público. Crianças desobedientes, por exemplo, eram punidas pela comunidade, não apenas pelos pais ou pela família extensa. A autoridade sobre as crianças pertencia aos adultos que conviviam com elas, aos membros da comunidade. Os pais não precisavam defender suas proles da intrusão de outras pessoas, a correção pela comunidade era aceita e estimulada. Educar crianças dos outros não era visto como intrusão ao espaço privado da família. E mulheres que desobedeciam a seus maridos também eram punidas pela comunidade. Para servir de exemplo a outras, os homens puniam as mulheres colocando-as em banquinhos de madeira mergulhados no rio. Como com as crianças, a autoridade sobre as mulheres era um direito da comunidade. Em resumo: a vida privada era menos valorizada.

Atualmente, se uma criança está causando problemas no espaço público, como em um shopping, por exemplo, correndo demais, gritando ou derrubando coisas, os adultos primeiramente olham para os lados à procura dos pais dela, esperando que eles consigam lidar com a situação, de preferência sem agredi-la. Caso os pais não estejam por perto, o adulto que se aventurar a controlar a criança irá com todo o cuidado possível, com medo de ser repreendido pelos pais dela, se de repente chegarem, e, principalmente, pela própria criança. Em vez de repreendê-la, como fariam nossos antepassados, ele irá perguntar o que está acontecendo com ela, por que ela está agindo dessa forma, com todo o cuidado do mundo para não ofendê-la. O risco de ser xingado ou até mesmo agredido por ela é grande. O adulto tem mais medo de ofender uma criança do que o inverso. Nessa história, dois pontos merecem atenção. Primeiro, a autoridade sobre as crianças não é mais da comunidade, pertence exclusivamente aos pais. Segundo, as crianças atualmente têm demasiado poder sobre os adultos.

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Podemos afirmar que a hierarquia do poder familiar se inverteu completamente. Voltando um pouco menos, até o século XIX, vemos crianças tratadas como pequenos adultos, sem nenhuma especificidade enquanto pessoa em desenvolvimento. A criança nem era legalmente considerada uma pessoa até atingir a maioridade, que se iniciava na fase que hoje chamamos de adolescência. A criança, enfim, não era valorizada. Atualmente, ela é supervalorizada. Ela saiu da quase inexistência social para ser a protagonista da família. O cerne da família não é mais o relacionamento entre marido e mulher, pais orbitam em torno das crianças como planetas em torno do sol. Elas têm direito a tudo e tudo é feito para lhes dar satisfação e evitar que sofram ou se frustrem.

Porém está nos faltando compreender a diferença entre frustração e sofrimento. Quando uma menina dá birra porque quer e não ganha a Barbie sonhada ela não está em sofrimento, está frustrada. Um menino que chora porque quer comer Passatempo no café da manhã e os pais não deixam não está em sofrimento, está frustrado. Frustrar-se é estar momentaneamente impedido de alcançar a satisfação – e isso não é sofrimento. A frustração moderada é essencial para o desenvolvimento do ser humano. Sem ela a criança cresce sem limites, acreditando que tem o direito de se satisfazer quando quiser, que o outro tem o dever de lhe prover satisfação, torna-se egoísta, mimada e irresponsável, incapaz de aceitar as frustrações inerentes à vida e de respeitar a vontade e o espaço do outro, sente-se superior aos demais e insatisfeita com a própria realidade. Por isso, pais, procurem evitar o sofrimento de seus filhos, é sua função protegê-los, mas não os privem das frustrações normais da vida. Ninguém merece lidar com criança mimada e, muito menos, com adulto mimado. Mimar é pavimentar o caminho para o sofrimento.

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