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O engenheiro agrônomo e professor Fabrízio Furtado é o novo colaborador do Portal TV Cidade. Neste primeiro texto, ele apresenta uma interessante análise entre a dialética (ou a falta dela) entre os administradores públicos e a população. Confira:

Alice, a Rainha Vermelha e as manifestações

“É preciso correr o máximo possível, para permanecermos no mesmo lugar”

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(Lewis Carroll, in Alice através do espelho e o que ela encontrou por lá)

No livro de Lewis Carroll, “Alice através do espelho e o que ela encontrou por lá”, há um momento em que Alice – a mesma personagem de “Alice no país das maravilhas” – encontra-se com a Rainha Vermelha e esta lhe diz: “It takes all the running you can do, to keep in the same place (É preciso correr o máximo possível, para permanecermos no mesmo lugar). Esta “corrida” da rainha vermelha é usada para dar o nome a uma hipótese evolutiva – a hipótese da Rainha Vermelha – que explica a corrida armamentista evolutiva entre as espécies. Poderíamos explicar esta hipótese usando um exemplo de fácil entendimento (que talvez não seja o melhor exemplo, mas que facilitaria nosso entendimento), ou seja, o exemplo de nossa corrida armamentista contra as bactérias patogênicas. Esta corrida armamentista ocorre quando expomos as bactérias patogênicas aos antibióticos que criamos. Isto é, toda vez que desenvolvemos um antibiótico mais potente, as bactérias não ficam paradas, elas continuam sofrendo mutações – que é o processo natural de geração de variabilidade dentro das espécies. Nesse processo, algumas dessas mutações podem proporcionar a elas, as bactérias, algum tipo de tolerância ou resistência ao antibiótico. Mas, nós também não ficamos parados, e estamos constantemente desenvolvendo novos medicamentos, os quais poderão suplantar a resistência ou tolerância das bactérias. Sendo assim, não são só as bactérias que estão constantemente evoluindo, nós também estamos avançando nesta disputa, ou, como diria a Rainha Vermelha: as duas espécies estão correndo cada vez mais rápido para ficarem no mesmo lugar, no mesmo ponto em que estavam no início de sua competição. Uma avança, a outra a alcança e assim por diante. Você já deve estar se perguntando: o que esta lengalenga toda tem a ver com as manifestações que estão pipocando no país? No meu ponto de vista, e aí gostaria de afirmar que é um ponto de vista bem pessoal, as manifestações tem tudo a ver com esta corrida da Rainha Vermelha. Já que, no processo de elaboração e implantação de políticas públicas há uma “corrida” entre os tomadores de decisão (e aí incluo todos os tomadores de decisão: prefeitos, vereadores, promotores públicos, juízes, diretores de grandes empresas, etc.) de um lado e a população de outro lado. Quando há uma demanda da população e o poder público (o governante) atende esta demanda, a população, não vai simplesmente bater palmas e ficar eternamente agradecida. O que ela – a população – faz é eleger uma nova demanda como prioritária. Por exemplo, uma rua está sem pavimentação, fazendo com que os moradores sofram com a poeira, em determinada época do ano, e com a lama em outra. Para estes moradores ter a rua pavimenta é sua grande demanda e o seu grande sonho. Aí o prefeito vai lá e calça a rua. Este morador não vai ficar eternamente satisfeito. O que vai ocorrer é que sua demanda vai mudar. Agora não será mais o calçamento, ele mudará sua prioridade. Agora a “bola da vez” será o mal que lhe incomodava mais, logo abaixo da falta de pavimentação. Este mal pode ser o PSF sem médico, a ausência de água alguns dias da semana, ou qualquer outra coisa que lhe aflija. Ele não ficará sem demandas para a prefeitura, apenas mudará o foco de sua demanda. No meu ponto de vista, é aí que os governantes, quando reeleitos, “patinam” no segundo mandato. Depois de um sucesso inicial (no primeiro mandato), quando reeleitos, entram em seu segundo mandato com o discurso de que “em time que está ganhando não se mexe!” Assim, eles, os governos, repetem no segundo mandato os “acertos” do primeiro mandato, esquecendo que a sociedade está em constante mudança, não identificam que as demandas da população mudaram e continuam repetindo, e algumas vezes radicalizando, uma fórmula já ultrapassada. Não é raro, num segundo mandato, os governantes abandonarem algumas áreas de atuação (saúde, esportes, limpeza urbana, manutenção de parques e jardins, etc.) para concentrar esforços em áreas nas quais obtiveram mais sucesso no primeiro mandato. Assim, algumas áreas em que ocorreram algumas ações no primeiro mandato – mesmo que limitadas – passam a ser negligenciadas, para não dizer simplesmente abandonadas, num segundo mandato. Isso tudo em função de achar importante concentrar os investimentos e os recursos disponíveis nas áreas em que considerou ter obtido “sucesso” no mandato anterior. E vocês me dirão: e as manifestações? Geralmente quem está no poder perde a noção da realidade. Isso ocorre porque ele, o governante, fica distante da população, e dificilmente seus assessores diretos, ou as pessoas que tem mais contato com ele, lhe falam como realmente anda seu “governo”. As impressões que passam para ele, geralmente, são “elogiosas”, e muitas das vezes desvinculadas da realidade. Quem não age assim é tratado como “do contra”, para não dizer coisa pior. O distanciamento do governante em relação à população, ou seja, o fato dele “não ir onde o povo está”, faz com que ele se distancie cada vez mais das verdadeiras demandas da sociedade. É aqui que, enfim, entra as manifestações. Elas são um fenômeno importante para fazer os governantes “porem os pés no chão”, ou seja, fazer com que se voltem mais para a realidade e descubram o que realmente a população deseja. As manifestações, bem como todos os mecanismos que levam a uma maior participação popular, ajudam os governantes a se sintonizarem com os desejos da população, e assim, ter um “rumo” em sua corrida, constante, para acompanhar as mudanças na sociedade. Lembrando que, com a rapidez com que as informações fluem atualmente, estas mudanças são cada vez mais rápidas. O que faz com que a “corrida” necessária para satisfazer as demandas da sociedade seja cada vez mais dinâmica e veloz. Qualquer governante que ficar em “seu mundo maravilhoso”, desconectado da realidade, estará fadado a perder a “corrida” e ficar para trás… E é claro, isso significaria perder a próxima eleição que disputar.

Fabrízio Furtado de Sousa é Engenheiro Agrônomo e Professor.

 

 

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