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O Donizete de Araújo, o Zeti, me disse que uma vez tomou umas biritas a mais num daqueles bares. Não muito afeito à bebida, logo ficou ‘tonto’. Enganchou-se com uma das meninas e sumiu barracão adentro. Era noivo; de casamento marcado. A moça de família, é que na verdade, ajudou-o a encobrir o caso; se não, adeus casamento. Mas, na verdade, ela se arretou com o noivo.

Bebida barata, misturada com cachaça da boa, da roça, misto de cigarro, cheiro de rapé bem feito, ou fumo de rolo, cortado no canivete, com palha boa, bem cortada. Meia luz, mesas esparsas, algumas garrafas pelos cantos, copos sujos e limpos, limpos e sujos, peles e suor. Uma mistura muito explosiva. É a trindade maldita que os militares tanto amaldiçoam. Pergunte a qualquer um deles. Chamam isso de “Cuanga”. Quando a coisa fica feia mesmo, a ponto de sair tragédia, ou grande embaraço pra qualquer uma das partes, chamam de “Muafa”. Se uma coisa virar “muafa”, sai de tudo. De tudo um pouco. Sai até no rádio se bobear. Pergunte a uma policial militar.

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O Zeti, depois de esbaldar-se com a ‘funcionária da luz vermelha’, perdeu a saída do corredor da zona. Foi de um lado a outro e não encontrava jeito de ir embora dali. Logo perdeu a paciência e enfiou o pé naquilo que ele achava ser o portão pra sair. Derrubou a porta do quarto mais chique, mais moderno do cabaré. Lá dentro, um senhor moreno, alto, forte, muito forte, estava a namorar. Assustado, pulou pra cima do Zeti que meio tontão, deu uma de machão tresloucado e engalfinhou-se com o senhor, por nome Zé Modesto, mais conhecido como “Timbuca”. Segundo o Zeti, o “Timbuca” ainda é vivo, aposentou-se (era caminhoneiro) e vive com a família na cidade de Betim, MG.

Diz o Zeti que ele desceu o braço no Zé Modesto, apanhou um caibro que estava no chão e desceu no Zé. Ele nem se mexeu. Catou o Zeti de qualquer jeito e colocou-o no lado de fora do cabaré: – pelado!  Zeti enrolou-se num tapete e sumiu rua afora. O povo saiu todos à porta para verem aquele homem desembestar-se pela rua, de carreirão, numa corrida só. Foi bater à casa da namorada, pulando o muro pré-fabricado, invadindo a residência da noiva pela porta da cozinha, sendo deveras denunciado pelo cachorro da casa, sendo insistentemente anunciado por ele. A mãe da noiva, futura sogra, quase desmaia ao ver o Zeti só de tapete, atarrachado. Parecia índio.

A noiva vestiu-o com uma roupa do pai, aproveitando que este havia ido num terreno seu, olhar a plantação de feijão e mandioca. Mas qual… Logo teve quem contasse e o velho se emperdigou todo, com o intuito claro e certo, de acertar as contas com o Zeti.

Diz ele que até hoje, mesmo depois de tantos anos de um feliz casamento, quatro filhos saudáveis, estudados e prósperos, o avô ainda tem uma certa antipatia com o genro. Com razão. A moça apanhou do pai. E o Zeti teve apressado o casamento. Casou-se de medo do sogro! Creio que deve ter medo do sogro até hoje.

A moça ficou com raiva do Zeti durante muitos dias. Quando finalmente apareceu na casa dela para se acertarem, teve que pedir a mão da moça em casamento. Assim, na lata, sob o olhar atento da sogra, fuzilando-o com um testa franzida e mãos intranquilas. Fora só uma aventura de momento. Nada mais, segundo ele. Ninguém acreditou na cena de arrependimento do Zeti. Queriam mesmo era casar a filha pra evitar falatório. Foi um empurrão rumo à degola. Enforcou-se no ditado popular.

A festa de casamento foi no antigo Clube Recreativo. O Zeti, com medo da noiva ficou uns bons anos sem beber. Tomar uma só quando o primeiro filho nasceu. E olhe lá. Foi pra bar do Maranhão na rua Olegário Maciel e tomou só umas duas, que era pra mulher não se estressar. Ainda mais agora no período chamado ‘resguardo’. Entrou no quarto quase que tremendo pensando que a mulher ia lhe xingar. Ela tomou trauma de bebida. Até hoje não suporta o cheiro nem de run, nem de vodka, que era a bebida que o Zeti tomou naquele dia. Se ele pudesse voltar atrás, certamente não teria entrado lá naquele dia. Tomou uma ‘tunda’ do Zé Modesto que até hoje se lembra bem. Diz ele que foram duas fueiradas. Bem dadas. Colocadas com precisão pela cara adentro. Dois cortes grandes, que outro dia fecharam um de seus olhos e aumentou seu rosto redondo. Num lado, ficou quadrado. Feio por muitos dias, que não trabalhou, meio com vergonha, meio escondendo dos outros.

Pra não chamar a atenção das pessoas, nem despertar nelas curiosidade, esperava a noiva na Praça do Cruzeiro, no antigo coreto. Pra quem se aproximava para conversar, Zeti logo dizia: – Como é boa esta Praça! E assim, saía sem nem olhar para trás. Inventaram assim o apelido: – Zeti Boa Praça! Não era admiração pela praça coisa nenhuma, se bem que ela merecia, com suas árvores frondosas, o coreto, seus pássaros, sua gente. Não tem isso mais, não é?

Zeti conta isso com sorriso largo. Sua esposa, com olhar de desabonação, não gosta nem de ouvir falar nessa história. Nem de perto, nem de longe. Quando tocam no assunto, a raiva lhe ferve a cabeça e ela, que é muito branquinha, fica vermelha a ponto de o Zeti ter que mudar a conversa. É que a esposa é baixinha e prometeu dar-llhe uma surra. Nem que seja no fim da vida. O Zeti debocha, mas não muito. Vai que ela está falando a verdade, não é?

Com mulher, diz meu pai, não é bom brincar de jeito nenhum. São bravas mesmo. Todas. Se lhe prometem uma coisa, espere. E não adianta reclamar, pois de um jeito ou de outro, você sairá perdendo no final das contas. Com certeza. Mulher sempre ganha no final do jogo. E de goleada.

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