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Tenho um sotaque e atributos peculiares que são distinguidos em qualquer lugar em que eu esteja. Basta dizer uma palavra com um R no meio e já descobrem um minerim na multidão, uma vez que sempre estico o som da consoante nas prosas que tenho. E foi numa conversa que constatei como o vocabulário mineiro também é rico e muito diferente de alguns lugares do Brasil, pois usamos expressões desconhecidas até por pessoas da nossa terra.

Em Minas, o fogão, por exemplo, não tem boca, mesmo a propaganda vendendo que tal modelo tem cinco que soltam chamas grandes. Aqui, fogão tem é trempe. E se na cozinha tiver confusão ou alguém dando palpite errado, a cozinheira logo grita o eufemismo: “vai lamber sabão”, que significa “não perturbe” ou “saia daqui”. Acredito que seja uma frase popular, porém nunca a ouvi em estâncias além das montanhas Gerais.

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Só quem acorda de manhazinha para trabalhar conhece o sentido verdadeiro da expressão que vou apresentar a seguir. Todo mineiro sabe como é duro o “batido da lata” em uma sexta-feira, véspera de um feriado na segunda. A labuta é intensa para deixar tudo resolvido, não é mesmo? E haja lata para amassar…

Bom mesmo é aproveitar aquele sono leve depois do almoço. Certamente, todo mineiro já “puxou a palha” depois de encher o estômago. Acredito que a ideia de quem cochila após a refeição se originou com aqueles que gostam de “dar uma pitada”, sobretudo com fumo de rolo. Ao preparar o cigarro, com um canivete, o fumante estica um pedaço de palha, fazendo o movimento de puxá-la até que a casca do milho fique lisa para que seja possível enrolar o fumo esfarelado nela. Um ato de paciência, de tempo. Ou seja, deve ser daí que surgiu esse momento de calmaria para ajudar na digestão.

Outra palavra que não é usada comumente por aí é a tal da nódoa. Certa vez, falei com um amigo, também mineiro, para que ele não deixasse que o suco de amora caísse em sua roupa, pois a fruta provocaria uma mancha difícil de limpar. “Cuidado com as gotas roxas, elas podem provocar uma nódoa”, alertei. Ele me olhou assustado. Nunca havia ouvido o termo. Eu disse que talvez ele conhecesse o jeito coloquial de pronunciar: “nódia”. E nada…Logo emendei: ”já ouviu falar em ‘macuco’, ‘furdunço’, ‘munha’?’’. Ele desconhecia. Encerrei a conversa falando:  “você é muito ‘cenoso’”. Ele fez cara de perdido, mas até Guimarães Rosa faria, já que o neologismo é pouco conhecido em qualquer banda. Para você revelo: “cenoso” é uma pessoa muito engraçada.

Pois é, uai! Esse trem é bão demais, sô!

14/10/2013. Credito: Marcos Michelin/EM/D.A Press. Brasil. Belo Horizonte - MG. Reporteres TV Alterosa - Reporter Juliano Azevedo.
Juliano Azevedo Jornalista, mineiro, Chefe de Redação da TV Alterosa/SBT Minas, Mestrando em Estudos Culturais Contemporâneos pela Universidade FUMEC, Professor de Redação Publicitária na Faculdade INAP, Escritor e Palestrante. Blog: www.julianoazevedo.blogspot.com Twitter: @julianoazevedo E-mail: [email protected] Instagram: @julianoazevedo

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